Segurança Energética

A questão do acordo nuclear iraniano envolve os principais pólos de poder do século XXI, nomeadamente, os EUA, a União Europeia (representada pela França e Alemanha), o Reino Unido, a Rússia e a China, sem excluir o próprio Irão, que é uma das principais potências no Médio Oriente. Tendo em conta as partes directamente envolvidas nas tensões, ou seja, EUA e o Irão e os recentes incidentes no Golfo Pérsico, especificamente no estreito de Ormuz, torna-se necessário pensar nas implicações que a escalada das tensões entre esses Estados pode ter para a Segurança Energética Internacional.

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Escalada das Tensões EUA vs Irão: Possíveis Implicações para a Segurança Energética Internacional

Introdução

Este artigo faz uma análise da escalada das tensões entre os EUA e o Irão no golfo Pérsico, mais concretamente no estreito de Ormuz. O aumento das tensões entre estes dois países surge na sequência de os EUA, terem abandonado unilateralmente, em 2018, o acordo sobre o programa nuclear iraniano, assinado em 2015 entre os EUA, o Irão, a Rússia, a China, a França, a Alemanha e o Reino Unido. A análise centra-se nos anos de 2018 e 2019, período em que as tensões atingiram um ponto alarmante, caracterizado, por um lado, por discursos de guerra e ameaças de recurso ao uso da força entre as partes, e por outro lado, por algumas movimentações de efectivos e meios militares e por alguns ataques de provocação e retaliação entre ambos. Estas tensões, são interpetadas a luz da Teoria da Dissuasão Racional de Paul Huth (1999), que advoga que o uso da dissuasão, como no caso dos EUA e do Irão, baseia-se num cálculo racional, visando minimizar as perdas e maximizar os ganhos. Considerando que o estreito de Ormuz, epicentro das tensões, é uma área vital para o transporte de hidrocarbonetos produzidos na região do Médio Oriente, sendo que dali passa cerca de 20% do petróleo produzido no mundo, surge a necessidade de compreender até que ponto a evolução das tensões entre os EUA e o Irão pode afectar a segurança energética internacional.

 

  1. Breve Contextualização das tensões EUA vs Irão

No ano de 2015 foi assinado, depois de dois anos de difíceis negociações, o acordo entre o Irão, EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China. Este acordo tem por objecto o programa nuclear iraniano, onde a nação islâmica se comprometeu em limitar o enriquecimento do urânio e em não construir bombas nucleares, em troca do alívio/suspensão parcial das sanções económicas impostas pelas nações ocidentais, como punição pelas pretensões nucleares do Irão. Com base neste acordo, o Irão deverá apenas desenvolver o seu programa nuclear para fins comerciais, médicos e industriais, respeitando os padrões internacionais de não proliferação de armas nucleares.

Três anos após a assinatura do acordo, ou seja em 2018, o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, eleito em 2016 como sucessor de Barack Obama, co-signatário do acordo de 2015, decidiu pela retirada unilateral dos EUA do acordo nuclear, alegando que o acordo foi mal negociado e que era mais vantajoso para o Irão. Trump afirmou ainda que o acordo nuclear não garantiria a protecção dos EUA e seus aliados de bombardeamentos nucleares por parte do Irão. O presidente americano acusou o Irão de violar o acordo e de buscar secretamente desenvolver o seu programa para fins militares, embora a AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica), entidade que supervisiona a implementação do acordo no Irão, tenha afirmado que o Irão respeitou acordo. Assim, os EUA passaram a exigir e a fazer pressão para o Irão, de modo a negociar-se um novo acordo nuclear com cláusulas mais duras para o país islâmico de modo a impedir a sua nuclearização (IFP, 2019).

Após a sua retirada unilateral do acordo, os EUA reactivaram as sanções económicas contra o Irão e todas as empresas ocidentais que fizessem negócios com este país. Os EUA classificaram ainda o Irão como uma nação terrorista, acusando-a de apoiar e financiar grupos terroristas. Como resposta ao posicionamento dos EUA, o Irão, por um lado, reafirmou o seu compromisso em manter-se no acordo nuclear e excluiu a hipótese de se negociar um novo acordo, e por outro lado respondeu às acusações dos EUA, afirmando que a administração Trump não é confiável e classificando as forças americanas presentes no Médio Oriente, Corno de África e Ásia Central como terroristas. As nações europeias por seu turno, reafirmaram também o seu compromisso em respeitar o acordo de 2015, porém mostraram-se abertas para a negociação de um novo acordo. Por fim, a China e Rússia criticaram o posicionamento dos EUA e de igual modo mostraram-se a favor do acordo assinado (IFP, 2019 e Resenthal, 2019).

Desde então, as relações entre os EUA e o Irão entraram num período de turbulência e incertezas, com os dois países a trocarem acusações e ameaças em vários momentos. Nos últimos meses, essas relações agravaram-se ainda mais, quando em Maio de 2019 os EUA enviaram uma força tarefa composta por porta-aviões e aviões bombardeios para o Golfo Pérsico com o objectivo de dissuadir qualquer ameaça iraniana. Seguidamente, vários episódios têm vindo a ocorrer, evidenciando assim a escalada de tensões e a possibilidade de confrontação militar directa entre as partes. Um desses episódios foi, de acordo com a agência de notícias Globo (2019), a 4 de Julho de 2019, quando o Reino Unido apreendeu um navio petroleiro iraniano no estreito de Gibraltar a pedido dos EUA, sob acusação de o Irão estar a transportar petróleo para a Síria violando assim as sanções internacionais impostas ao país árabe. Pouco tempo depois, em jeito de resposta, o Irão apreendeu dois navios petroleiros britânicos no estreito de Ormuz, acusando-os de terem violado regras internacionais de navegação. Um outro episódio está ligado a circulação de drones no estreito de Ormuz, onde no mês de Julho, a Guarda Nacional Republicana do Irão interceptou e derrubou um drone americano, alegando que o mesmo teria invadido o seu espaço aéreo. Como resposta, os EUA ameaçaram levar a cabo uma acção militar contra o Irão, porém, esta, viria a ser abortada pelo presidente Trump. Tempo depois, os EUA afirmaram ter derrubado um drone iraniano no mesmo estreito de Ormuz, sob alegação de que o mesmo ameaçava as embarcações militares americanas.

Todos estes acontecimentos evidenciam de forma inequívoca, o risco de uma confrontação militar envolvendo os EUA e seus aliados contra o Irão, no Médio Oriente, especialmente no estreito de Ormuz, que é uma das principais rotas para o transporte de petróleo e gás. No momento, as partes se encontram numa fase de conflito militar latente, sendo que os EUA mobilizaram a sua marinha de guerra para as imediações do território do Irão, e este último, por seu turno, mobilizou de igual modo a sua marinha, estando esta estacionada no estreito de Ormuz. Enquanto mais acções militares não são levadas a cabo, segue-se a troca de ameaças entre as partes, estando os EUA buscando forçar a negociação de um novo acordo nuclear, através da dissuasão militar e económica, e o Irão buscando garantir a manutenção do anterior acordo e a sua sobrevivência, através do recurso a mesma dissuasão.

  1. Análise das Tensões EUA vs Irão

Tendo sido feita a contextualização e uma breve descrição evolutiva das tensões entre os EUA e o Irão, segue-se a análise do mesmo caso e para tal, será aplicada a Teoria da Dissuasão Racional (Theory of Rational Deterrence). Esta teoria é uma abordagem da Teoria de Dissuasão de autores como Thomas Shelling e Berard Brodie, e baseia-se em escolhas racionais de tomada de decisão e na Teoria de Jogos. Os defensores da teoria da dissuasão racional, tal como é o caso de Huth (1999), defendem que o sucesso da dissuasão é mais provável se a ameaça de dissuasão de um Estado que se defende for credível aos olhos de um Estado que ataca, ou seja, a estratégia de dissuasão do Irão deve ser credível aos olhos dos EUA. Huth (Ibid.) descreve que a ameaça de um Estado é considerada credível quando o mesmo possui as capacidades militares para infligir custos substanciais ao seu adversário em um conflito armado, e quando esse mesmo adversário acredita que o Estado dissuasor seria capaz de concretizar as suas ameaças. Assim, o autor identifica quatro factores-chave que explicam a Teoria da Dissuasão Racional, são eles: (i) o equilíbrio militar; (ii) sinalização e capacidade de barganha; (iii) a credibilidade coerciva/reputação de determinação; e (iv) natureza dos interesses em jogo.

A seguir, encontramos estes factores explicados e aplicados no caso das crescentes tensões entre os EUA e o Irão. Importa referir que para efeitos analíticos, tratamos os EUA como Estado de ataque – considerando que foram os primeiros a abandonar o acordo nuclear e a retomar as ameaças e agressões contra o Irão- e o Irão como Estado atacado/que se defende.

2.1. O equilíbrio militar

O equilíbrio militar consiste na ideia de que, para uma dissuasão bem-sucedida, o Estado precisa da capacidade militar para responder rapidamente e em força perante as acções do seu adversário. Aqui, destaca-se ainda a ideia de que, mesmo em situações de assimetria de poder, tal como é no caso dos EUA e Irão, nenhum Estado deve subestimar as capacidades do seu adversário, pois, cada um deles é racional e age com base em cálculos de custos e benefícios.

No caso específico das tensões EUA vs Irão, observa-se que mesmo estando o Irão numa posição inferior à dos EUA em termos de capacidade militar, o país islâmico procura em várias ocasiões demonstrar a sua capacidade de resposta e força perante as atitudes dos EUA. Os incidentes com os petroleiros evidenciam de forma clara este argumento, onde os EUA com a colaboração do Reino Unido detiveram um petroleiro iraniano, e como resposta o Irão deteve dois petroleiros britânicos e intensificou a fiscalização no estreito de Ormuz. Por outro lado, este argumento pode também ser aplicado olhando para os EUA. Exemplo disso é o caso dos incidentes com drones militares no estreito de Ormuz, onde o Irão derrubou um drone americano, e como resposta os EUA derrubaram igualmente um drone iraniano.

2.2. Sinalização e poder de barganha

O principal problema para um Estado que busca dissuadir de forma credível através de acções diplomáticas ou militares é que todos os Estados que se defendem têm um incentivo para agir como se eles estivessem determinados a resistir a um ataque, na esperança de que o Estado que ataca vai afastar a hipótese de um conflito militar e recorrer à mesa de negociações. Porém, nalguns casos o Estado que ataca pode entender a determinação do Estado atacado como um bluff, o que motiva o primeiro a intensificar a dissuasão. Os teóricos da Dissuasão Racional argumentam que para evitar este risco, o Estado atacado deve ser capaz de transmitir, de forma credível, a sua determinação para se defender de qualquer ameaça ou acção que pode ser alvo. Para tal, o Estado atacado deve transmitir sinais claros que aumentem claramente o risco e os custos de um conflito militar (Querty, s/d).

No caso das tensões EUA vs Irão, nota-se que ambos países procuram sinalizar a sua determinação para entrar numa confrontação militar directa, se assim for necessário. Neste caso, os dois países buscam manter-se numa posição de força, tanto a nível discursivo ou de ameaças, assim como a nível mais operacional, considerando as acções concretas levadas a cabo por cada uma das partes visando transmitir a sua credibilidade coerciva de modo dissuadir a contraparte e criar condições para uma negociação. Como exemplo disso tem-se o caso no qual os EUA enviaram, a 7 de Maio de 2019, uma frota liderada por um porta-aviões e bombardeiros para o Golfo Pérsico, com o objectivo de dissuadir o Irão, e em jeito de resposta o presidente iraniano afirmou que a sua Guarda Republicana estava preparada para responder a qualquer ameaça dos EUA. Ou seja, o invés de recuar perante uma ameaça directa dos EUA, que são a maior potência militar e económica no mundo, o Irão respondeu igualmente com ameaças. O caso dos incidentes com os petroleiros e os drones militares é também ilustrativo deste argumento, uma vez que ao invés de cederem perante atitudes agressivas do seu adversário, os dois países responderam com força de modo a sinalizar a sua determinação para violência e credibilidade coerciva.

2.3. Reputação de determinação

Há três argumentos diferentes que foram desenvolvidos em relação ao papel da reputação em influenciar os resultados de uma estratégia de dissuasão:

– O primeiro argumento está ligado ao histórico de respostas de um Estado que se defende em disputas e crises internacionais (Irão), o que cria fortes crenças no Estado que ataca (EUA) sobre o comportamento esperado do primeiro Estado em conflitos futuros;

– A segunda abordagem defende que a reputação tem um impacto limitado sobre os resultados de dissuasão porque a credibilidade da dissuasão é fortemente determinada pela configuração específica das capacidades militares e restrições políticas enfrentadas por um Estado que se defende;

– A terceira abordagem é um meio-termo entre as duas primeiras. Ela afirma que tanto o comportamento passado é importante para a percepção da determinação de um Estado adversário, assim como a configuração específica das capacidades e restrições políticas. O Estado de ataque deve actualizar as suas informações e crenças sobre o Estado que se defende com vista a evitar erros de cálculos (misscalculations) (Huth, 1999 & Querty, s/d).

Considerando as abordagens apresentadas, constata-se, em primeiro lugar que, as diferentes crises e tensões ocorridas no Médio Oriente no geral, e no Golfo Pérsico em particular, atribuem ao Irão um histórico e certo grau de reputação de determinação perante ameaças externas. Em 1973 por exemplo, o Irão juntamente com outros membros da OPEP, desencadearam a crise do petróleo ao cortarem o fornecimento de petróleo aos EUA, Reino Unido, Japão e França, como resposta ao posicionamento desses países em relação ao conflito israelo-árabe. Na década de 1980, verificou-se a Guerra dos Petroleiros no Golfo Pérsico, envolvendo o Irão e o Iraque, que culminou com a entrada dos EUA no conflito, uma vez que na altura eram aliados do Iraque. Nesta guerra, enquanto por um lado o Iraque atacava embarcações de bandeira iraniana ou que atracavam em seus portos, por outro lado o Irão fazia o mesmo com as embarcações do Iraque e de outros países árabes que circulavam no estreito de Ormuz. Com o objectivo de travar o Irão, que ameaçava fechar o estreito de Ormuz, que é de vital importância para o transporte de hidrocarbonetos, os EUA levaram a cabo uma intervenção naval no golfo com vista a proteger os navios que por aí passavam. Esta decisão resultou em ataques entre os EUA e o Irão.

Em segundo lugar constata-se que, não obstante o facto de o Irão possuir um histórico credível de respostas perante crises e tensões com os EUA, este país possui capacidades militares assim como económicas inferiores às dos EUA, o que reduz a credibilidade da dissuasão iraniana no actual cenário de escalada das tensões entre os dois países. Ademais, as restrições políticas enfrentadas pelo Irão decorrentes das sanções económicas e isolamento político de que é alvo, devido às suas pretensões nucleares, contribuem igualmente para a descredibilização da dissuasão iraniana perante um Estados Unidos que ocupa uma posição de liderança a nível global. Por fim, em terceiro lugar constata-se que uma estratégia dissuasão racional passa por uma avaliação da reputação de determinação, tanto dos EUA assim como do Irão, assim como pela avaliação das capacidades e restrições políticas de cada um desses dois Estados.

2.4. Natureza dos interesses em jogo

Este factor baseia-se no argumento de que os Estados que se defendem de ataques têm maiores interesses em jogo, estão mais decididos a usar a força e estão mais dispostos a suportar perdas militares para proteger esses interesses. Aqui, os defensores da dissuasão racional recomendam uma avaliação exacta dos interesses em jogo, de modo a perceber até que ponto o adversário estaria disposto a envolver-se num conflito.

Com base neste factor nota-se que, embora os EUA e o Irão recorram ao uso da dissuasão como estratégia de acção, a natureza dos interesses defendidos por cada um desses países difere grandemente. Enquanto por um lado os EUA utilizam a dissuasão para forçar o Irão a negociar um novo acordo nuclear, com o fim último de impedir que este país islâmico adquira armas nucleares e reduzir a sua influência no Médio Oriente, o Irão, por outro lado, pretende travar as pretensões americanas e garantir a vigência e cumprimento do acordo nuclear de 2015, o que permitiria o alívio de sanções económicas contra si impostas e lhe conferiria algum espaço de manobra para a sua eventual nuclearização. Para além disso, o facto de os EUA procurarem combater e neutralizar o regime iraniano e as suas pretensões nucleares, enquanto, por seu turno, o Irão busca garantir a sobrevivência desse mesmo regime, contribui para uma maior determinação em termos de resposta por parte do Irão, considerando a natureza dos interesses em causa para cada um dos países, tendo em conta o pressuposto realista de que a sobrevivência é o interesse-mor para qualquer regime, e para a sua defesa estes estão dispostos a ir até a guerra.

Sumarizando, tendo como base de análise a Teoria da Dissuasão Racional, é possível perceber que tanto os EUA assim como o Irão não tencionam, a princípio, entrar num conflito militar directo. Estes países usam a estratégia de dissuasão como meio para a busca de seus interesses. Todavia, as hipóteses de ocorrência de um conflito directo entre as partes não são nulas, pelo contrário, são cada vez mais crescentes e a eclosão ou não de um conflito deverá estar ligada dentre vários outros, aos quatro factores trazidos na Teoria da Dissuasão Racional.

  1. Possíveis Implicações da Escalada das Tensões EUA vs Irão para a Segurança Energética Internacional

A questão do acordo nuclear iraniano envolve os principais pólos de poder do século XXI, nomeadamente, os EUA, a União Europeia (representada pela França e Alemanha), o Reino Unido, a Rússia e a China, sem excluir o próprio Irão, que é uma das principais potências no Médio Oriente. Tendo em conta as partes directamente envolvidas nas tensões, ou seja, EUA e o Irão e os recentes incidentes no Golfo Pérsico, especificamente no estreito de Ormuz, torna-se necessário pensar nas implicações que a escalada das tensões entre esses Estados pode ter para a Segurança Energética Internacional.

Esta necessidade encontra o seu fundamento no facto de estarem envolvidos nesta tensão, dois actores relevantes na matriz energética internacional e por esta mesma tensão ter como epicentro um espaço geográfico de grande valor estratégico para o fornecimento e transporte de hidrocarbonetos, isto é, o Golfo Pérsico e mais concretamente o estreito de Ormuz.

O estreito de Ormuz é uma pequena faixa de navegação entre o Irão e o Oman. A região liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Oman e ao Mar da Arábia, permitindo o transporte de petróleo para consumidores na Ásia, na Europa e na América do Norte. Pela faixa, que tem apenas 33 km entre as duas margens em seu ponto mais estreito, passa cerca de 20% de todo o petróleo produzido no mundo. Cinco importantes membros da OPEP – Arábia Saudita, Irão, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque – exportam sua produção pela área. O Qatar, principal exportador de gás natural liquefeito do planeta, envia quase todo o seu produto por Ormuz. O estreito de Ormuz é fonte de disputas há décadas e sua localização estratégica tem sido a justificativa para os Estados Unidos manterem uma forte presença militar na região, com bases e a presença de navios de sua Quinta Frota (Globo, 2019).

Fonte:https://www.google.com/amp/s/www.infoescola.com/hidrografia/estreito-de-Ormuz/amp/

Assim sendo, a escalada das tensões entre os EUA e o Irão nessa região pode ter efeitos nefastos na estabilidade e segurança energética internacional. A segurança energética é uma componente importante na segurança e economia internacional, pois, os recursos energéticos são de elevado valor para os Estados, tanto na dimensão económica, assim como tecnológica e militar. De acordo com O’Sullivan (2013:30-31), o conceito de segurança energética dizia respeito inicialmente, a garantia do fornecimento de energia de forma segura e a preços baixos (security of supply). A segurança energética, em grande medida, era percebida como uma noção de relevância para os países consumidores ou importadores.

Posteriormente, o conceito passou a integrar outras variáveis como a diversificação de fontes, a segurança da demanda (para o caso de países exportadores), segurança no transporte e das rotas, segurança das infra-estruturas, a inovação tecnológica e eficiência energética, redução da poluição ambiental, entre outros aspectos.

Deste modo, considerando a multidimensionalidade do conceito de segurança energética e as particularidades da disputa entre os EUA e o Irão, dois aspectos importantes da segurança energética merecem aqui ser destacados. Estes aspectos/dimensões são: a segurança no abastecimento e segurança no transporte e rotas. Estes aspectos podem facilmente ser afectados se a actual tendência de escalada das tensões entre os EUA e o Irão continuar. Tendo em conta que os países do Golfo Pérsico, nomeadamente o Irão, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Oman, Kuwait, Arábia Saudita e outros países do Médio Oriente produzem, com base em dados de 2018, cerca de 35% do petróleo do mundo e exportam mais de 25% desse recurso, e no caso do gás natural, os mesmos países produzem cerca de 17.8% da cota mundial e exportam 29.2% do GNL (gás natural liquefeito) produzido no mundo, a alteração do panorama de segurança nesta região pode afectar directamente o sector energético internacional, positiva ou negativamente (BP, 2019: 16, 28 e 40).

Deste modo, se permanecer o cenário de escalada de tensões no Golfo Pérsico, mais concretamente no estreito de Ormuz, pode-se dar o caso de se criar uma situação de instabilidade no fornecimento de hidrocarbonetos, o que afectaria os preços e consequentemente a segurança no abastecimento da energia.

Sumarizando, importa referir que o sector energético internacional é vulnerável e sensível a crises, muitas vezes originadas por questões políticas, considerando que existe uma relação estreita entre os recursos energéticos e a política e segurança internacionais. A crise de petróleo de 1973 por exemplo, nos mostra claramente que disputas políticas envolvendo actores relevantes da matriz energética internacional podem resultar na insegurança energética. A guerra dos petroleiros entre o Irão e Iraque na década de 1980, nos mostra igualmente esta realidade. Recentemente, a escalada de tensões entre os EUA e o Irão devido ao programa nuclear iraniano tem vindo a se tornar numa ameaça cada vez mais crescente para a segurança e estabilidade energética internacional. Deste modo, o retorno a negociação entre as partes torna-se vital não só para a garantia da segurança e estabilidade militar do Golfo Pérsico, mas também para a promoção da segurança energética internacional.

Considerações Finais

A retirada dos EUA do acordo sobre o programa nuclear iraniano, em 2018, agravou ainda mais as relações entre esses dois países, que já há muito tempo são marcadas por momentos de tensão. Os discursos de ameaça e as acções militares levadas a cabo entre as partes, elevaram o risco de eclosão de um conflito militar directo na região do estreito de Ormuz. Todavia, com base na Teoria da Dissuasão Racional, é possível concluir que, a princípio, estes dois países não tencionam entrar num conflito directo. As ameaças e pequenas acções militares inserem-se numa estratégia de dissuasão mútua, visando fazer pressão para a negociação de um novo acordo nuclear (EUA) ou a manutenção do actual (Irão), outrossim, esta estratégia pode visar outros objectivos estratégicos.  

Embora o conflito entre os EUA e o Irão ainda esteja limitado ao nível retórico, os seus efeitos sobre o mercado energético regional e global já se fazem sentir, primeiro criando incertezas quanto ao preço e disponibilidade da energia produzida no Médio Oriente, e segundo ameaçando a segurança militar no estreito de Ormuz, uma rota importante para exportação de petróleo e gás por parte dos países dessa mesma região.  Assim sendo, considerando o valor estratégico do petróleo e gás natural na economia global e segurança internacional, é importante que se crie um quadro proactivo de segurança na região do Golfo Pérsico, que deverá passar por um maior diálogo entre os EUA e o Irão.

Referências Bibliográficas

AFP (2019), Cronologia desde a saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã. Disponível em: https://www.em.com.br/app/notícia/internacional/2019/05/08/interna_internacional,1052187/mp.html. Consultado aos 8 de Agosto de 2019.

BP (2019), Statistical Review of of World Energy, 68ª edição, BP.

Globo (2019), Irã captura petroleiro britânico no Estreito de Ormuz; segundo navio é liberado. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/ira-captura-petroleiro-britanico-no-estreito-de-ormuz-segundo-navio-liberado-23819513. Consultado aos 20 de Agosto de 2019.

Huth, Paul K. (1999), Deterrence and International Conflict: Empirical Findings and theoretical debates. Annual Review of Political Science, vol. 2, nr. 1, pág. 25-48.

Meghan L. O’Sullivan (2013),The Entanglement of Energy, Grand Strategy, and International Security, Andreas Goldthau (eds.), The Handbook of Global Energy Policy, First Edition, John Wiley & Sons, Ltd.

Querty (s/d), Teoria da Dissuasão: Deterrencetheory. Disponível em: https://pt.qwerty.wiki/wiki/deterrence_theory#Rational_deterrence_theory. Consultado aos 17 de Agosto de 2019.

Ruben Resenthal (2019), Crise no Golfo Pérsico: a confrontação bélica é inevitável ou o círculo vicioso pode ser rompido, Jornal GGN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/artigos/crise-no-golfo-pérsico-a-confrontação-é-inevitável-ou-o-círculo-vicioso-pode-ser-rompido-por-ruben—rosenthal/amp/. Consultado aos 20 de Agosto de 2019.

 

Sobre o autor

Zacarias Mário Monjane Júnior Graduado em Relações Internacionais e Diplomacia Pelo Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI), actual Universidade Joaquim Chissano -UJC. E-mail: [email protected]

 

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não necessariamente refletindo as opiniões da AIMEI.

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